18 de ago de 2010

O lado D do Brasileirão


São 40 clubes de 25 estados brasileiros. que estão se enfrentado durante quatro meses, em um campeonato regionalizado, com 154 jogos que merecerão nada mais que notas de rodapé nos jornais e revistas, alguns parabéns nas rádios e poucos segundos nas grandes redes de televisão. É a Série D.
“D” de desprezada. A CBF, ao divulgar o regulamento da competição, não fala nada de premiação, nem ao menos ajuda para transportes. “Estamos sozinhos, sem ajuda. Pelo menos isso significa que os clubes mais bem organizados terão alguma vantagem. É uma situação muito difícil fazer futebol assim”, diz Raimundo Queiroz, diretor de futebol do Santa Cruz, ex-presidente do Goiás.
A falta de ajuda para transportes é sentida principalmente pelos paraenses. Quando estão na Série A, por exemplo, são obrigados a constantes e cansativos deslocamentos, ao contrário de clubes do Sudeste. “A Série D é regionalizada, mas para nós não muda muito. Temos de usar o avião sempre”, diz Lucival Alencar, vice-presidente do Remo. Ele cita o jogo contra o Cametá como exemplo. “São apenas 150 quilômetros, mas se for de ônibus, temos de passar por três balsas em rios. Então, temos de fretar avião e é um gasto muito grande.”
O médico Ulisses Salgado, presidente do América-RJ, é enfático na crítica à CBF. “Ricardo Teixeira abandonou 40 clubes à própria sorte. E isso em um ano em que a CBF, por causa da Copa, vai faturar muito dinheiro. É um erro muito grande, porque esse campeonato poderia revelar bons jogadores.”
Sem apoio oficial, o convite para disputar a Série D foi gentilmente recusado por vários times. A debandada maior foi em Goiás. Santa Helena e Anapolina, os indicados, disseram muito obrigado e foram imitados por outros clubes. As vagas ficaram então com o Distrito Federal, que indicou Botafogo e Brasília. Roraima também desistiu, o que favoreceu o Cametá, do Pará.
As desistências se seguiram. Em Minas, o Uberaba só foi confirmado após a saída de Democrata e Villa Nova. O Potiguar de Mossoró, no Rio Grande do Norte, entrou após as negativas de Corinthians de Caicó e Santa Cruz-RN. O Santana, do Amapá, deu lugar ao Cristal. O Pelotas substituiu o Veranópolis. E o Murici pediu para sair depois da enchente que destruiu a cidade alagoana.
Entre desconhecidos como Náuas, Vila Aurora e JV Lideral, para três times a Série D tem outro significado.
“D” de desejo. Para Remo, Santa Cruz e América-RJ é o primeiro passo para uma caminhada de ao menos três anos. A possibilidade de subir do fundo do poço à saída. O início do sonho de voltar à Série A.
Em 2009, tudo isso se transformou em um enorme pesadelo para o Santa Cruz. Mesmo com sua fanática torcida comparecendo em grande número nos três jogos (média de 38.246 torcedores), o time não passou da primeira fase.
“Jogamos o Campeonato Pernambucano com um orçamento de R$ 800 mil e diminuímos para R$ 450 mil na Série D. Jogadores saíram, precisamos montar outro time e tudo deu errado. Agora, o planejamento foi muito bem feito”, lembra e lamenta Fernando Bezerro Coelho, presidente do Santa.
O orçamento atual é de R$ 550 mil e foi mantido. O time tem a mesma base do Pernambucano. Os destaques são o atacante Brasão, que ajudou a eliminar o Botafogo na Copa do Brasil, e o veterano Jackson, ex-Palmeiras, Cruzeiro e até Seleção.
Se a situação é ruim, o torcedor e a diretoria do Santa Cruz podem ter algum consolo ao olhar para o Remo. Para o time de Belém, só o fato de estar na Série D já é um avanço. “Na última temporada, nem isso conseguimos”, lembra Lucival Alencar.
Nos últimos anos, o Remo tem perdido protagonismo mesmo no Pará, onde São Raimundo e Águia despontam para ser o grande rival do Paysandu.
O São Raimundo é de Santarém, próximo ao Amazonas e com muita identidade com o Estado vizinho. Há um grande intercâmbio de jogadores. E o Águia é de Marabá, vizinha à sede da empresa Vale do Rio Doce. Em caso de divisão territorial do Pará (há propostas avançadas), Santarém ficaria no Estado de Tapajós e Marabá, no de Carajás. “Esses times já se aproveitam disso e buscam patrocínios regionais, o que o Remo não consegue”, explica o jornalista Tylon Maves, do Diário da Amazônia.
Mas é a força da torcida que faz o Remo ter um bom patrocínio. Empresas fortes da capital investem nos dois times de Belém, mesmo que o Paysandu, da Série C, esteja em posição melhor que o Remo. E como a folha de pagamento é menor, o clube está se recuperando financeiramente. Em campo, a aposta é o armador Gian, ex-Vasco, de 37 anos. “Ele é nosso diferencial”, diz Lucival Alencar.
Se simpatizantes fossem o mesmo que torcedores, o América, citado como segundo clube no coração dos cariocas, sempre teria o seu Giulite Coutinho, com capacidade para 18 mil pessoas, lotado.
Não é assim, mas a construção do estádio é uma das apostas do presidente Ulisses Salgado para sonhar com o acesso. “No Rio, apenas América e Vasco têm estádio próprio. Isso mostra que somos organizados. E que estamos em rota ascendente. Vamos subir na bola, sem tapetão, como em 2009”, diz, em referência ao título da Segunda Divisão carioca. “Quase disputamos um dos quadrangulares finais. Agora, mantivemos o patrocínio da Unimed, que garante o pagamento da folha salarial até o final do ano. Só vamos gastar com deslocamentos”, diz.
O que o presidente, que contratou Alex Dias, tem certeza é de que não lançará mão de uma arma que seriviria pelo menos para levar gente ao campo. “O Romário é diretor de futebol, encerrou a carreira e não joga mais. Vamos subir sem ele”.
Pena, peixe. Seria uma grande atração para a Série D.

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