13 de out de 2010

O paraíso de Dante (posfácio ao livro do escritor imperatrizense Axel Carlos Brito)


Vós, que em frágil barquinha navegando,

Desejosos de ouvir, haveis seguido

Meu baixel, que proeja e vai cantando,

Volvei à plaga, donde haveis partido,

O pélago evitai; que, em me perdendo,

Vosso rumo talvez tereis perdido.

(Dante, “A Divina Comédia”, parte 3 - Paraíso, Canto 2, versos 1 a 6)

Um mar agitado... Uma ilha desabitada... Um náufrago desacompanhado... Um papel enrolado... Uma garrafa arrolhada... Uma esperança danada...

O que não faz o ser humano para levar adiante sua mensagem, de um grito de socorro a um anúncio de salvação?

Pinturas em rocha, inscrições em pedra, sinais de fumaça, toques de tambor, pombos-correio, telepatia, grito, sussurro... Telégrafo, telefone, rádio, fax, televisão, internet, mensagens em garrafa...

Mensagens em garrafa?!

No livro ou no cinema, celulose ou celulóide, as mensagens em seus minissarcófagos de vidro foram tema ou referência de estórias e da História. Seja o isolado sobrevivente em uma ilha, comunicando seu desespero e também o seu amor, seja o jovem à beira-mar, em seu desejo de comunicar (-se), são personagens em busca de um leitor, de uma (salv)ação.

Ação e salvação. Estas foram as palavras que, mal ou bem, definem dissilábica ou trissilabicamente o sentimento de um autor por trás de seu texto.

O Paraíso de Dante, de Axel Carlos Brito, não sei bem por quê (mas sei...), me lembra assim uma dessas mensagens que se coloca(ria) em uma cápsula do tempo -- em forma de garrafa, é a sugestão... – e se enterraria fundo no solo, ou se largaria ao léu no mar, ou se deixaria no sem-fim do Cosmos.

Axel Brito ancora-se em vinte e cinco referências (inclusive letras de músicas), passagens poéticas ou prosificadas, que, em destaque no texto, recortam e pontuam e reforçam seu convite -- “Vem!” – e sua esperança de ele ser atendido. A essas duas dúzias de citações, junte-se umas sete dezenas de menção a diversos outros autores, obras, artistas, deuses, semideuses, mitos, personagens... O que, para uns, pareceria tão-só abuso do name-dropping, excesso de referências culturais, pode se justificar como mensagens que lhe chegaram em garrafas visíveis à sua mente ou como partes (poucas) com que formou um pequeno apanhado de seu universo de leituras e vivências -- mensagens ou partes selecionadas que ele teimou em enfiar na garrafa que ele próprio está lançando nas águas ultimamente um tanto plácidas e previsíveis da literatura imperatrizense. Ou, mais apropriadamente, a multidão de seres é como que uma replicação, decalque, em quantidade e moldura menores, dos personagens vistos por Dante em sua caminhada por degraus, portais, terraços, círculos, céus. Falta saber quem são os guiadores, o Virgílio e a Beatriz, de Axel Carlos Brito...

O conteúdo de O Paraíso de Dante pode ser considerado um testamento, no qual o escritor-testador diz de suas últimas vontades aos leitores, que são, ao mesmo tempo, testamenteiros e testamentários, cumpridores e herdeiros dessas vontades.

A obra é um caminhar. Daí o caminho (ou caminhos) oferecer(em) variadas “vistas”, variado conteúdo, um verdadeiro cardápio de impressões e abordagens. Descreve desde receitas de culinária a procedimentos de jardinagem e arborização urbana. Detalha detalhes de Engenharia, Arquitetura, Moda e Decoração. Vai à Música, à Literatura e à Pintura. Cinema também. Arte e Cultura. TV e MPB. Fala de mulheres faladas, do amor falível e da finitude infalível. Linguagem e Educação. Cosmologia, Mitologia e Ecologia. Sociedade e Religião. Planejamento Urbano. Estatísticas do mundo e do meio ambiente. Ousa na Futurologia (chamada no livro “fantasia”), quando Axel sugere novas formas ou jeitos novos em meios de transporte, edificações...

Claro, o livro fala - e fala com amor - de Imperatriz, a cidade, do Tocantins, o rio. Traz dela e dele passagens e paragens.

O título O Paraíso de Dante é uma referência à terceira e última parte de A Divina Comédia, do escritor e político italiano Dante Alighieri, que viveu nos séculos 13 e 14 e é considerado o primeiro e maior poeta (“il sommo poeta”) daquela língua.

***

O Paraíso de Dante, de Axel Carlos Brito, não esconde infernos nem purgatórios. Não promete céus. É um convite, apenas. Aceita-se, ou não.

Em uma ilha-Terra cercada de águas cósmicas por todos os lados, lançando em mares garrafas grávidas de mensagens, um autor está sozinho.

...E não é ele o náufrago.

Cachorrinhos de Madame

(ou De locomotivas e vagões)

Há muita insegurança em (in) certos chefes do Poder Executivo. Têm medo de renovação, liderança, criatividade, inovação, ousadia. Armam esquemas e freiam investimentos em candidaturas que lhes possam criar “sombras”. Daí a solução é apoiar candidatos toscos, colocá-los à frente de um projeto (!) político ou de poder. Estes políticos toscos devem ser do tipo cachorrinho manso, daquele que, em parques e praças, vai à frente da madame. Esses dóceis cãezinhos parecem ter tomado a dianteira, mas na verdade há coleiras e rédeas, cordas e cabrestos direcionando os passos e rumos do bichinho de estimação.

Esses políticos mansos são uma espécie de intermediários do “establishment”, da mesmice, do quase-atraso. Não renovam o debate político, não debatem a agenda nacional, regional ou local. Só servem para serem mandados. Qualquer gesto de autonomia, de independência, de caráter que deveriam ter -- e eis que lhe puxam as rédeas, encabrestam-no, puxam-lhe as cordas, põe-se-lhes arreios e ajustam coleiras e focinheiras... Tornam-no, sem trocadilho, um animal político.

Com práticas atrasadas como essas, embora negadas nos discursos empolados, os (in)certos chefes do Poder Executivo comportam-se como vagões e não locomotivas. Esses políticos não puxam para diante, como o fazem as potentes máquinas. Esses políticos são puxados, são meros vagões do trem do atraso mental, da insegurança pessoal, da quase nulidade política. São políticos que não inspiram a comunidade a que deveriam servir. São políticos que não renovam as práticas da Política e da Administração Pública. São ocupadores de cargo, não desenvolvedores nele.

Não vale a pena insistir nesses políticos. Gastar verbo com eles, que só falam em verba, que só culpam a (falta de) verba. Chefetes assim deveriam se candidatar a gestor da Casa da Moeda. Deveriam ser caixa ou chefe de Tesouraria, já que só querem pegar em dinheiro.

Imperatriz sai mais pobre destas eleições de 2010. Quanto mais candidaturas ricas, mais pobres os resultados. Porque numa verdadeira sociedade democrática não haveria necessidade de se investir tanto em tanta coisa. Sem saudosismo, mas seria quase o caso de se retornar à boa e velha (isto é, antiga) prática do falar nas praças, nos ajuntamentos de gente.

É lamentável que em Imperatriz as mais expressivas entidades de classe e de categorias profissionais, patronais, sociocomunitárias não tenham se valido de seu papel e estimulado e realizado debates com ou entre candidatos. Seria saudável saber-lhes as idéias, os projetos, o passado, as ações presentes, a visão de futuro. Mas não. As entidades locais se fecharam em copas, como se estivessem em Marte, alheias ao que ocorria em uma pequena unidade do planeta azul. Depois, estas entidades vão se arvorar em arautos das reclamações, das denúncias, das críticas e sugestões, quando nada fizeram, quando nada cobraram no momento da formação da agenda de ações legislativas e parlamentares dos candidatos ao Poder Legislativo.

Neste momento certos políticos riem e gozam o sucesso de suas podres urdiduras e toscas candidaturas. Nem sequer comparam que gastaram milhões para seus candidatos receberem, individualmente, menos de um milhão nos quatro anos em que se refestelarem à sombra do mandato e nas sobras da campanha.

Como já disseram: não nos devemos incomodar com o barulho dos maus, mas com o silêncio dos bons.

Imperatriz ainda é uma cidade que silencia. Pelo menos fecharam a boca certas estruturas sociais, profissionais, patronais, comunitárias, artístico-culturais... Um ou outro arremedo de encontro, algumas entrevistas na Imprensa, um ou outro panfleto ou folheto - e nada mais se soube dos projetos e idéias e visões de centenas de candidatos.

Haverá um dia - ainda que por morte (política ou física) de coronéis e chefetes eleitorais -, haverá um dia em que campanhas serão melhores, mais justas, mais equilibradas. Haverá um dia em que propostas serão construídas cooperativa e solidariamente. Haverá um dia em cidades terão como candidatos verdadeiras locomotivas, com poder de transportar com velocidade - mas sobretudo com segurança - as comunidades para um novo momento. Precisamos de potentes locomotivas, que puxem, e não de pesados vagões, que têm de ser puxados pelos beiços.

Não precisamos de pessoas que se colocam à frente, como cachorrinhos de madame.

esanches@mirante.com.br

Um comentário:

Sinceramente, o Brasil atual tem jeito?

Que olha a cena político-social-econômica atual se pergunta sinceramente:o Brasil tem jeito? Um bando de ladrões, travestidos de senadore...