20 de out de 2010

HIDRELÉTRICA DE ESTREITO: Pescadores sem Rio



Estreito é uma cidade com 27 mil habitantes, poucas ruas asfaltadas, uma rodoviária caindo aos pedaços e um prostíbulo aberto 24 horas por dia em plena área comercial. Nos últimos quatro anos, a cidade viveu um “boom” com a construção da usina hidrelétrica que atraiu operários do Pará e de todo o Nordeste. Mas as obras já estão acabando e milhares de trabalhadores ficaram desempregados.

De uns tempos para cá, a pesca, principal atividade econômica da camada mais pobre da cidade, nunca esteve tão farta. Jaús e pirararas graúdos são desembarcados pelos pescadores diariamente. Mas tanta fartura deixou os pescadores preocupados. É que a abundância começou depois que o vertedouro da usina em construção foi fechado, há mais ou menos seis meses. Desde então, a pesca ficou completamente confusa. Acima da represa, os peixes desapareceram. Abaixo, a pesca está mais fácil do que nunca.

A explicação é simples. Peixes migratórios como os grandes bagres (surubins, cacharas e jaús) precisam subir os rios até suas cabeceiras para desovar e se reproduzirem. Com a construção da usina, a barragem impede que eles cumpram seu ciclo natural. Milhões tentam, em vão, transpor o paredão e viram alvos fáceis dos pescadores.

- Isso não está certo. Antes, a coisa mais difícil era você ver um jaú do tamanho de um homem aqui por perto. Se está sobrando agora, é porque vai faltar no futuro - explica Valdir Ribeiro da Silva, 42, pescador de fala ligeira e pele queimada de sol.

- O peixe vai acabar - vaticina Valdir.

A preocupação dele já chegou à presidente da Colônia de Pescadores de Estreito, Raimunda Miranda dos Santos, 35. Mas ela sabe que a luta para que o problema seja resolvido é desigual.

A Usina Hidrelétrica de Estreito está sendo construída pelo consórcio CESTE, formado pelas multinacionais Suez Energy (França), Vale do Rio Doce (Brasil), Alcoa (Estados Unidos) e Camargo Corrêa Energia (Brasil). Boa parte dos 1.087 megawatts que a usina vai gerar serão destinados para as siderúrgicas da Vale e da Alcoa.

- A pesca acima da represa praticamente acabou, e aqui embaixo, está farta, mas a gente sabe que se continuar assim, o peixe vai acabar. Já reclamamos, mas eles (consórcio) não fizeram nada - diz Raimunda.

Leito

Para piorar, durante a dragagem para a construção da represa, o canal do rio Tocantins na orla de Estreito mudou de lado. Antes, a navegação se dava pela margem esquerda do rio. Agora, um imenso banco de areia surgiu desse lado e mudou o canal para o lado direito.

- Nunca vi uma coisa dessas na minha vida. Esse rio vai morrer e a gente vai junto com ele - alerta Valdir.

Multinacionais ainda não mediram os danos

Para os especialistas do CESTE, ainda não há provas de que a barragem está prejudicando a pesca no rio Tocantins. Por meio de nota, a empresa informou que há um programa de conservação da ictiofauna da região conduzido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Trinta biólogos especialistas, diz a nota, estão na região estudando os impactos da usina e que serão estas análises que irão determinar se houve ou haverá queda na produtividade pesqueira da região.

O argumento do consórcio é rebatido pela presidente da Colônia de Pescadores de Estreito.

- Mais de 400 famílias já foram prejudicadas. O pessoal que tinha ponto de pesca acima da barragem está passando necessidade, porque o lago está subindo e não tem mais peixe. As casas que eles tinham lá já estão ficando submersas - argumenta.

Sobre a alteração no canal do rio, o consórcio não chega a negá-la, mas se esquiva. - Não há qualquer comprovação de que alterações no leito do rio possam ter interferido na produção pesqueira ou nas populações de peixes -. Conclui o CESTE em nota.

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